Paul Klee. "Embrace". Aquarela, pastel e óleo sobre papel. 1939

Paul Klee. "Embrace". Aquarela, pastel e óleo sobre papel. 1939
Uma bela imagem para representar a junção de dois saberes, enquanto uma generosa possibilidade de se abraçarem ideias.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Breves especulações sobre humanismo e antropologia filosófica

Antropologia filosófica e humanismo se interpenetram ao compasso de se distinguirem cabalmente. Pode-se dizer, em suma, que um implica conhecimentos sobre o outro, perfazendo uma parceria útil, no seguinte sentido: o humanismo enche-se de axiologia a partir dos indicativos fornecidos pela antropologia filosófica.

A antropologia filosófica, por meio de seus apanhados acerca do gênero humano, da humanidade e das características infindáveis e inesgotáveis do traço, condição e possível natureza humanas, forma imagens intercambiantes que nutrem o humanismo de conteúdo, permitindo, a partir da visualização desta diversidade, uma estima e apreço por tais caracteres.

Evidente que, nesse sentido, o julgamento ético e estético é decisivo; soaria contraditório argumentar por uma "estima do humano" se forem abordados os aspectos mais nefastos, perversos e sádicos que a inteligência humana pode produzir. Contudo, sob um aspecto abstrato, não se pode negar tais dimensões como constitutivas do humano e não se pode evitá-las para uma apreciação de gamas e plexos das variantes humanas e suas condutas.

A antropologia filosófica quer conhecer o mais e o além do homem; o humanismo implica em um reconhecimento histórico valorativo.

Queira-se ou não, resista-se e critique-se, ou seja-se indiferente, fato é que referidas implicações são de caráter histórico, como é traço marcante da antropologia filosófica: as construções acerca do homem nas produções filosóficas ao longo de vários contextos temporais e espaciais. Ao compasso, o humanismo vale-se de construções precipuamente jurídicas: os direitos humanos, que abrem o desafio da ação política e do compromisso hermenêutico.



quinta-feira, 15 de março de 2012

De volta ao debate

Nas últimas edições de postagens dediquei-me à busca pelas interfaces e correlações das leituras de algumas compreensões da antropologia filosófica com o direito. 

Evidentemente, abordei o tema dentro da humildade de minhas leituras e de alcance de visão do problema. Pretendia recolher pontos de vista na construção de uma possível imagem teorética, sem pretensões de esgotar alguma verdade, embora cresse estar seguindo o caminho mais afinado com um contexto de definição de direitos conquistado a base de muita luta e que gera uma obrigação moral de vinculação. 

De lá para cá, mais uma monografia, desta vez de especialização, depois, alguns entendimentos se amadureceram, e a crença permanece. A tese central de que o direito é uma expressão de antropologia filosófica resiste, pois, a despeito de qualquer embate, me é uma imagem de alto poder estético e de convencimento. O mais, são outros posicionamentos em diálogo.

Não podemos negar nossos referenciais, experiências, leituras e vivências; seria desonesto conosco e, no final, desperdício dos anos, que são tempo de vida, essa tão fugaz manifestação.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A responsabilidade dos cientistas, por Celso Furtado

Na área que me é familiar, a economia, verifica-se um empenho em buscar o formalismo, em adotar métodos que fizeram a glória das ciências ditas exatas. Ora, o objeto de estudo das ciências sociais nem sempre é perfeitamente definido, é algo em formação, criado pela vida em sociedade.

Disso me dei conta cedo, ao me debruçar sobre os problemas do desenvolvimento econômico. Com efeito, já o conceito de desenvolvimento nos obriga a entender que o homem é um fator de transformação, agindo tanto sobre o contexto social e ecológico como sobre si mesmo. Por isso a reflexão sobre o desenvolvimento traz em si uma teoria do ser humano, uma antropologia filosófica. [grifou-se].

Impossível expressar a alegria de ver reverberar com tanta clareza, pelas palavras de um intelectual consagrado, uma constatação tão olvidada em nossos dias e que traria uma revolução epistêmica e compreensiva do mundo. 


Obrigado, Celso!


Artigo completo em:
http://subjetividadenapesquisa.blogspot.com/2011/04/responsabilidade-dos-cientistas.html 

sábado, 19 de março de 2011

Efeito "morphing", diferenças e traços comuns

Still do vídeo "Black or white", de Michael Jackson (1991).


Still do vídeo "Cry", de Godly e Cream (1985).

O vídeo "Cry", da música de 1985 da dupla inglesa então composta por Kevin Godley e Lol Creme é rememorado por suas qualidades técnicas, em especial pelo emprego expressivo das passagens entre os diversos rostos, concorrendo assim para o desenvolvimento técnico do efeito "morphing", consagrado no clipe de Michael Jackson, "Black or white", de 1991.

O interessante efeito expressa com muita propriedade, tanto no clipe de Godley e Creme, quanto no de Michael Jackson, e mesmo no de "Shout & Deliver" (1981, The Reels), a ideia de uma unidade na diversidade, eis que pela mudança das imagens sentimos um "continuum" presente nas diversas faces e suas expressões.

No clipe de Michael Jackson, inclusive, o tema se coaduna muito propriamente com as imagens compostas e representadas de realidades cosmopolitas, globalizadas e multiculturais, consagrado o tema por meio da tomada em que o artista se encontra na tocha da estátua da liberdade e ao fundo uma série de monumentos icônicos de diferentes culturas. Acima fiz um recorte tanto das passagens entre os rostos quanto desta composição icônica de um mundo reunido.

Penso que a técnica tanto do "fade" quanto do "morphing" fazem ver com muita evidência esta característica humana e, assim, pode ser úteis para ilustrar discussões sobre diferença, igualdade e dignidade, ao mesmo tempo em que permitem vislumbrar nosso sentido de humanidade, por exemplo, na noção de solidariedade inter e intra geracional.




sábado, 5 de março de 2011

Dormindo, Philip Guston


Philip Guston. Dormindo. Óleo sobre tela. 1972.
Referência: http://www.matthewlangley.com/blog/uploaded_images/guston_sleeping-724518.jpg

O homem que caminha, Alberto Giacometti


Alberto Gicometti. O homem que caminha. Bronze. 1,83m. 1961.

As três idades do homem e a morte, Hans Baldung


Hans Baldung. As três idades do homem e a morte. c.1539. Óleo sobre madeira. 151x61cm. Museo del Prado, Madrid, Espanha.


Conforme o "Livro da Arte" (2005, p. 24), a obra representa — com intenso cuidado e realismo da representação figurativa que demonstra a técnica anatômica dominada pelo artista — a infância, a juventude, a velhice e a morte, utilizando-se da forma humana em seus diversos momentos de vida para tanto.

O recurso a estas alegorias fantásticas, tal como as de Hieronymus Bosch, para expressar o terror e os sofrimentos humanos, fora corrente na época do pintor, Hans Baldung (1484-1545), que fora gravurista, pintor, e aluno de Albrecht Dürer.

Certamente a obra preserva o seu tônus enunciativo ainda hoje, levando-nos, por meio do embate com o teor da imagem, a refletir sobre estas etapas da vida, ali reunidas de modo muito próximo em uma única imagem que destaca os efeitos físicos e psíquicos da passagem do tempo. A riqueza de elementos simbólicos, como a cruz no céu, o sol, a coruja ao chão, a ampulheta, a árvore atrás da juventude, a dinâmica cena ocorrendo ao plano de fundo, assim como o ritmo cíclico perceptível por entre os corpos entrelaçados, ou pelos braços e pernas, ou pelo cajado da morte, constroem uma coerente imagem que leva o espectador à profunda reflexão sobre o tema.

Assim, eixos da antropologia filosófica estão ali implicados, como que unidos em uma única representação. Do nascimento à morte, abrangendo a vida, a imagem remete ao enigma da existência e sua finitude.


REFERÊNCIA

PHAIDON PRESS. Vários colaboradores. O livro da arte (The art book). Tradução de Maria da Anunciação Rodrigues. Hong Kong: Publifolha, 2005. p. 24.

Referência da imagem:

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Apontamentos sobre "Introdução à Antropologia Filosófica", de Antonio Gomes Penna

Sobre o autor:
Antonio Gomes Penna nasceu em 13 de maio de 1917, no Rio de Janeiro. Sua contribuição pioneira à Psicologia brasileira é atestada por vários historiadores. Parte desta contribuição está expressa nos 14 livros que publicou. O Prof. Penna realizou duas docências-livres, em Psicologia e em Psicologia Educacional. Exerceu várias funções acadêmicas, entre elas, a chefia do Centro de Pós-graduação em Psicologia do ISOP, da Fundação Getúlio Vargas. Atualmente é professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Antonio Gomes Penna concedeu esta entrevista a Elza Dutra, psicóloga e professora da UFRN, no Rio de Janeiro, em outubro de 1996.

Sobre o livro "Introdução à Antropologia Filosófica": trata-se de obra integrante de coleção de livros de psicologia (Coleção Introdução à Psicologia) publicados pela Editora Imago. São curtas apresentações, contextualizadas e referenciadas, dos mais diversos pensamentos dos filósofos congregados na disciplina de "antropologia filosófica". São 17 capítulos em que se discute as distinções de "antropologia filosófica" e "antropologia científica", assim como em que se analisam o pensamento e obras de autores da tradição ocidental tais como Max Scheler, Karl Jaspers, Hannah Arendt, Ernst Cassirer, Wilhelm Dilthey, Sören Kierkegaard, René Descartes, São Tomás de Aquino, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre. Além dos debates e controvérsias no trato dos autores, é enfocado o humanismo em sua relação com a modernidade, com a fenomenologia e com o individualismo. Por fim, é analisada uma história da antropologia filosófica conforme Bernard Groethuysen.

Logo na apresentação o autor faz um pertinente apontamento, ao dizer que espera que o texto estimule entusiastas do tema a contribuições mais ricas, ao compasso de alertar "para a distância bem significativa que separa a 'antropologia filosófica' da psicologia. Parece-me que tal alerta pode ser feito em relação ao direito, contudo, com uma dinâmica diferente tendo em vista o princípio da dignidade da pessoa humana, donde decorre a pertinência pleno do tema ao direito. Este alerta, ademais, parece-me, novamente, esclarecer o liame das ciências humanas e filosofia.

1. SOBRE A ANTROPOLOGIA CIENTÍFICA (p. 15-21)

O autor indica o sentido primeiro de antropologia enquanto estudo do homem, destacando as diferentes maneiras de se realizar tal estudo, donde advém diversas modalidades de antropologia. Assim, a "antropologia física" toma por referência das dimensões puramente físicas do homem, enquanto a "antropologia social" tem por referência os pontos de vista social e cultural.

Como temas da "antropologia física" podem ser destacados o estudo do homem em relação aos demais animais, realizando-se, assim, estudo em um ramo da ciência natural, bem como os indicadores de evolução humana, campo no qual se pode encontrar fonte para a "antropologia social". Esta base é destacada com a interpretação do livro de Morin, em especial sob as cinco revoluções detectáveis a partir do conhecimento de material fóssil.
  • Edgar MORIN. O enigma do homem. 1975.

As cinco revoluções identificadas por Morin e descritas por Penna (2004, p. 16-17) concernem: a primeira à Etologia (mudanças no conceito de animal); a segunda à Ecologia (conceito de natureza que engloba animal e meio enquanto unidade altamente complexa de interdependência); a terceira à Biossociologia (fundamentação biológica do social); a quarta à Psicologia, pela retomada dos conceitos de consciência, subjetividade, individualidade e liberdade, como decorrência lógica das constatações anteriores; e a quinta à Antropologia Social, a partir das descobertas do homem de Neanderthal (sepultaras que indicam além da preservação do corpo, com rituais de vida após a morte).

Discutindo especificamente a "antropologia social", Penna (2004, p. 17-18) pontua os seguintes autores:
  • Lewis H. Morgan. Ancient history. 1877.
  • Edward Taylor. Primitive culture. 1871.
  • Murray Leaf. Uma história da antropologia.
  • J. J. Bachofen.
  • Henry Sumner Maine.
  • John F. McLennan.
  • W. H. R. Rivers.
  • E. Durkheim.
No contexto das produções da "antropologia social", o autor destaca Claude Lévi-Strauss, nomeando deste dois comentadores, quais sejam: C. R. Badcock ("Estruturalismo e teoria sociológica") e J. G. Merquior ("De Praga a Paris"). Destes, principalmente de Merquior, Penna realiza uma síntese realçando pontos do movimento "estruturalista" (sem considerá-lo um movimento unificado, quanto menos uma "escola"), iniciando pela discussão sobre Jakobson (linguista da Escola de Praga), enfatizando também o trabalho, nesta linhagem, de Lévi-Strauss, de Roland Barthes, de Michel Foucault e Louis Althusser, assim como de Jacques Lacan. Aponta, ainda, no mesmo contexto, as contribuições mais adstritas à filosofia, sob o trabalho da "teoria da Gestalt" (Max WErtheimer, W. Kohler, Kurt Koffka).

  • Claude Lévi-Strauss. Anthropologie Structurale; La pensée sauvage; Mythologiques; Structures élementaires de la parenté.
  • Freud.
  • Marx.
  • Jakobson.
  • Barthes.
  • Foucault.
  • Althusser.
  • Lacan.

Discutindo de modo mais detido a obra de Lévi-Strauss, o autor identifica no pensamento deste as contribuições da compreensão de Freud e de Marx. Com Freud, um importante ponto de contato seria o "conceito de inconsciente", do qual ambos diferem substancialmente. Conforme esclarece o autor, em Lévi-Strauss "trata-se de um inconsciente puramente estrutural e formal,algo que estrutura os fenômenos, mas que não os preenche no sentido de lhes dar um conteúdo. A mente selvagem [...] constituiu uma agência de estruturação e classificação" (um inconsciente coletivo e racional, jungido ao cogito), distinto do entendimento freudiano de "uma mente cheia de instintos primitivos" (inconsciente individual e irracional, jungido à libido) (PENNA, 2004, p. 18). Assim, temas desenvolvidos por Lévi-Strauss em "As estruturas elementares do parentesco", "Totemismo" e "Pensamento selvagem" comunicam-se diretamente com "Totem e tabu", de Freud, assim como "Mythologiques" com "A interpretação dos sonhos".

Ademais, da comparação entre ambos autores, destaca igualmente Penna (2004, p. 19) o tema do "contrato social". O tema da origem da sociedade encontraria em Lévi-Strauss e Rousseau, em linhas gerais, uma explicação segundo a qual o "estado de natureza" precedeu o de sociedade, e naquele estado os homens possuíam caráter "não social", em muito distinto de um "anti-social". Conforme expressa Penna, "existe um funcionalismo implícito, quer em Rousseau, quer em Lévi-Strauss, que sugere que os homens precedem o estado de natureza e renunciam ao incesto para assegurar os benefícios que resultam da criação de alianças de paentesco com outros grupos de homens" (2004, p. 19), dos quais nasceriam formas de comunicação social tais como bens, serviço e linguagem.

No tocante à relação Lévi-Strauss e Karl Marx, Penna (2004) destaca, com escopo em Badcock, o problema da "mudança social". Segundo o autor, Lévi-Strauss "sempre se definiu como um marxista, tal como, por igual, sempre se considerou um estruturalista" (2004, p. 20). Assim o autor se vale da consideração da sociedade como fruto de relações materiais conflituosas como pressuposto. Lévi-Strauss também se posicionaria crítico a certos entendimentos do marxismo, como a compreensão da "teleologia da história" proposta neste âmbito, marcada essencialmente por um ponto de vista europeocentrista que enfoca nações industrialmente avançadas como único futuro possível às sociedades primitivas, sem lhes considerar a diferença, rotulando-lhes apenas um "subdesenvolvimento". Para tal entendimento, Penna (2004, p. 20) referencia Luc Ferry e Alain Renaut em "Heidegger et les modernes".

Também pontua, Penna (2004, p. 21) que, no tocante ao método sociológico suposto por Lévi-Strauss estariam as propostas do "positivismo durkheimiano modificado para se tornar o estruturalismo straussiano e a dialética marxista considerada como meio de explicar a mudança social".

Por fim, o autor do capítulo em comento (2004, p. 21) esclarece que nem a "antropologia física" nem a "antropologia social" são objetos da preocupação efetiva da obra, eis que o objeto principal é a "antropologia filosófica", servindo tal delimitação para distinguir os campos de atenção e estudo do autor.

Compartilha-se desta distinção do autor na proposta deste blog.


REFERÊNCIAS

Antonio Gomes Penna. Estud. psicol. (Natal), Natal, v. 2, n. 1, Jun. 1997. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-294X1997000100007&script=sci_arttext. Acesso em: 13 Fev. 2011.

PENNA, Antonio Gomes. Introdução à antropologia filosófica. Rio de Janeiro: IMAGO, 2004.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

André Comte-Sponville, a filosofia, as ciências humanas e o "homo demens"

Comte-Sponville (2005, p. 110) adota como mote de sua reflexão acerca das ciências humanas a questão "o que é o homem?". Reconhece, historicamente, uma série de pensadores que se debruçaram sobre tal questionamento, de modo que "o homem" não consiste, basicamente, em uma inovação conceitual recente nos quadrantes do pensamento filosófico.

Rememora o autor, pois, da Antiguidade, o socrático "conhece-te a ti mesmo", assim como a idéia de "humanismo estóico" a partir de Sêneca ("o homem é uma coisa sagrada para o homem") e Cícero ("um ser humano, pelo simples fato de sê-lo, não deve ser encarado como um estrangeiro por outro ser humano"). Ademais, refere-se também a Protágoras: "o homem é a medida de todas as coisas", e a Platão, em Teeteto: "o que pode afinal ser isto, um homem? E o que uma tal natureza deve fazer ou suportar, que a distinga dos outros seres? Eis o que busca o filósofo, eis o que este tanto se afadiga para explorar cuidadosamente".

Da modernidade, Comte-Sponville cita Montaigne, Pascal, Hume e Kant — apenas exemplificando — e indicando que a estes a questão do homem se colocou como um dos objetos essenciais de reflexão ao compasso da centralidade do tema enquanto objeto essencial à própria filosofia de um modo geral.

Neste contexto, destaca o autor que ocorrera, nos séculos XIX e XX, uma relevante diferença no modo de abordagem do problema: passou-de da filosofia às ciências humanas. Este corte epistemológico, para Comte-Sponville , representou um campo novo de problemas filosóficos, eis que a filosofia passara a ter novos saberes disponíveis sobre os quais poderia se debruçar; "quanto mais aprendemos sobre o homem, mais há matéria para filosofar" (COMTE-SPONVILLE, 2005, p. 112).

O homem enquanto sujeito e enquanto essência é enfocado (e desestabilizado) neste modo de abordagem distinto, trazido pelas ciências humanas. Tendo em vista o que afirmara Marx, que "a essência humana não é uma abstração inerente ao indivíduo singular. Em sua realidade, ela é o conjunto das relações sociais", assim como as mudanças propiciadas por Copérnico (homem deixa de ser o centro do universo), Darwin (o homem em sua condição animal) e Freud ("o eu não é senhor em sua própria casa"), teve-se que o modo de enfrentamento do problema resultou em, segundo o autor, "colocar o homem em seu lugar, que não é o de princípio, mas de um efeito, não o de uma essência, mas de uma história" (COMTE-SPONVILLE, 2005, p. 113). Some-se a isto os conhecimentos advindos do aporte da biologia e da neurobiologia e ter-se-á um quadro de conhecimento do homem.

Comte-Sponville (2005, p. 113) também fornece o entendimento de Levi-Strauss sobre o objetivo das ciências humanas, que seria o de "dissolver" o homem ao invés de pretender constituí-lo, ou seja, o trabalho etnográfico consistiria na observação das diferenças para se alcançar as invariantes, em um empreendimento de muitos encadeamentos de reintegração da humanidade particular e geral, assim como cultura e natureza e a vida em suas condições físico-químicas. Neste sentido, segundo Comte-Sponville, "na medida em que é materialista ou naturalista, esse programa excede as ciências humanas. É onde reencontramos a filosofia" (2005, p. 114).

Assim, refere-se a Husserl e a Sartre enquanto tentativas de se salvar a "transcendência" do homem e o seu livre-arbítrio; e Althusser e Barthes enquanto tentativa de reconhecer no contexto das ciências humanas quais as necessidades por meio delas se revelam, para então se poder iniciar um processo de libertação ética ou política. E neste tema da libertação e do livre-arbítrio entende Comte-Sponville que "somente o conhecimento da necessidade é libertador: é entendendo que não se é livre que se tem uma chance de vir a sê-lo, pelo menos em parte" (2005, p. 114), afinal deve-se reconhecer que o homem faz parte da natureza e da sociedade.

Após uma reflexão sobre o humanismo, o autor por fim se dedica à sucinta resposta à pergunta "o que é o homem?", valendo-se dos pontos de vista biológico e filosófico, sendo neste último sentido o ser humano "um ser que tem de tornar-se humano, tanto quanto possa." (COMTE-SPONVILLE, 2005, p. 115). E, referenciando Edgar Morin, apresenta uma resposta à pergunta, com a ressalva de que a loucura e a sabedoria são, enquanto "verdadeiras", raras, o que nos permite compreender o que expressou Morin.

É um ser de uma afetividade intensa e instável, que sorri, ri, chora, um ser ansioso e angustiado, um ser fruidor, ébrio, extasiado, violento, amante, um ser invadido pelo imaginário, um ser que sabe a morte e não pode acreditar nela, um ser que secreta o mito e a magia, um ser possuído pelos espíritos e pelos deuses, um ser que se alimenta de ilusões e de quimeras, um ser subjetivo cujas relações com o mundo objetivo são sempre incertas, um ser submetido ao erro, à errância, um ser úbrico que produz desordem. E, como chamamos de loucura a conjunção da ilusão, da desmesura, da instabilidade, da incerteza entre real e imaginário, da confusão entre subjetivo e objetivo, do erro, da desordem, somos obrigados a ver que homo sapiens é homo demens. (COMTE-SPONVILLE, 2005, p. 116).

REFERÊNCIA
COMTE-SPOONVILLE, André. A filosofia. Tradução de Joana Angélica D'Avila Melo. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

sábado, 22 de janeiro de 2011

Quem é o homem?




Dois vídeos muito sensíveis que abordam algumas das qualidades percebidas pela Antropologia Filosófica no desdobramento de sua questão principal acerca da pergunta "o homem, quem é ele?". Um interessante material para despertar a preocupação com a problemática, bem como de se recolher alguns indicativos presentes nos mais diversos pensamentos em torno da questão.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Ainda algumas ideias iniciais

A proposta deste blog é dar azo, ou vazão, às discussões sobre os temas da Antropologia Filosófica — até mesmo organizando algumas referências sobre o assunto — visando o seu aproveitamento para as preocupações jurídicas diante do contexto social, em especial na preocupação tuitiva do homem (ser humano) e do desenho destes conceitos na contemporaneidade, imantados que são pela inafastável preocupação socioambiental, por exemplo.

Felizmente, como estímulo e contento quanto a atual situação institucional e científica do tema, parte-se de leituras de constitucionalistas tais como Luis Roberto Barroso, Ana Paula de Barcellos e, em especial, Ingo Wolfgang Sarlet, este em cuja obra "Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais na Constituição de 1988" já revela o recurso às fontes da Antropologia Filosófica, com destaque a Max Scheler.

Por isso, ao longo do que se tem investigado, e que se expressa por meio de breves explanações postas em breves artigos e postagens dos blogs correlatos, desenvolve-se a idéia de que o foco desta procura recai justamente no princípio da dignidade da pessoa humana, pela correlação imediata tanto do problema da Antropologia Filosófica, qual seja o "de quem é o homem", acompanhado do metaprincípio jurídico da dignidade humana.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ponto de partida; o que nós queremos

Imagem: um dos mosaicos que o jogo permite fazer a partir de seleções randômicas de elementos do rosto, acrescidos de uma descrição física e simbólica da pessoa.

Iniciando com um "webtoy" muito significativo...

A proposta deste blog é investigar interrelações entre o Direito e a Antropologia Filosófica enfocando as possibilidades que esta pode oferecer aquela em termos de percepção de mundo e sensibilização à complexidade que é o ser humano, e que se encontra diretamente implicado pelas formas jurídicas.

O jogo acima referenciado é uma ferramenta muito interessante. Sua dinâmica consiste na formação de infinitas imagens a partir da combinação aleatória de fragmentos diversos do rosto humano acrescido de uma descrição textual da pessoa que se pode buscar por meio da adequação daqueles fragmentos em uma imagem única.

Uma das peculiaridades da história da antropologia filosófica, como bem se pode perceber por meio dos clássicos Bernhard Groethyusen e Battista Mondin, é o caráter fragmentário, histórico e mutante que se vai tendo ao longo dos tempos e das sociedades sobre "quem é o homem", ao compasso de múltiplas tentativas de conceituação e enfoque de elementos essenciais ou sobressalentes, em um trabalho quase sempre fadado à certa frustração, mas nem por isso menos válidos. No caso do jogo, percebe-se a imensa diversidade em um mesmo contexto social, que é o da produção do jogo e das pessoas nele envolvidas, nossas contemporâneas.

Trata-se, o jogo aqui sugerido, de uma mídia muito provocativa e instigante, que permite vislumbrar um cenário de diversidade e inferir as múltiplas dimensões das vidas humanas, de seus destinos e dos sentidos das vidas. É um interessante jogo de pensamento.

Se o leitor tiver novos comentários, pode acrescê-los ao final desta postagem, relatando suas experiências com este jogo muito interativo na disposição das peças, mas, principalmente, na formação de ideias e sondagem de opiniões pessoais.